Tempo de leitura: 8 minutos | Nível: Para todos os públicos
Se você pudesse estar em Marte agora mesmo, de pé na superfície do planeta vermelho, e olhasse na direção do hemisfério ocidental, veria no horizonte algo que não existe em nenhum outro lugar do sistema solar.
Não parece uma montanha. Parece uma parede.
Um escarpamento de até 8 quilômetros de altura cortando a paisagem como a borda de um continente suspenso no ar. E se você soubesse o que está olhando, saberia que acima dessa parede existe uma montanha tão larga que, de onde você está, a curvatura do próprio planeta a esconderia do seu campo de visão.
Esse é o Olympus Mons — o maior vulcão do sistema solar. E ele não é apenas uma curiosidade geológica. É a chave para entender por que Marte foi um planeta muito diferente do que é hoje, e por que os cientistas estão, em 2025 e 2026, mais próximos do que nunca de responder à pergunta mais importante da astronomia moderna.
Houve vida em Marte?
A montanha que não parece uma montanha
O Olympus Mons tem 21 quilômetros de altura — medido a partir da base, e não do “nível do mar” marciano, o número chega a 26 quilômetros em relação ao terreno ao redor. O Everest tem 8,8 quilômetros. Ou seja, o Olympus Mons é quase três vezes mais alto que a montanha mais alta da Terra.
Mas a altura, sozinha, não é o mais impressionante.
O que realmente choca é a largura: 600 quilômetros de diâmetro. Uma área total de 300.000 quilômetros quadrados — equivalente ao território inteiro da Itália ou da Polônia. Ou ao estado americano do Arizona. Se você colocasse o Olympus Mons sobre a Europa, ele cobriria a França e ainda transbordaria pelas bordas.
E ainda assim, apesar de tudo isso, o Olympus Mons não parece uma montanha se você estiver sobre ele.
É um vulcão do tipo escudo — aquele com flancos muito suaves, de apenas 5% de inclinação média. Se você pousasse no meio de suas encostas e começasse a andar, acharia que estava em uma planície levemente inclinada. Andaria por horas sem ter nenhuma sensação de estar subindo uma montanha. O horizonte marciano está a apenas 3 quilômetros de distância para um observador no solo — e o vulcão se estende muito além disso em todas as direções, desaparecendo além da curvatura do planeta antes que você pudesse ver seu perfil completo.
No topo há uma caldera — uma cratera de colapso — de 80 quilômetros de comprimento por 60 de largura e 3 quilômetros de profundidade. Seis calderas aninhadas umas dentro das outras, como cicatrizes sobrepostas de erupções em épocas diferentes.
A última grande erupção aconteceu há cerca de 25 milhões de anos. Em termos geológicos, isso é muito recente — a Terra ainda era habitada pelos ancestrais dos primeiros grandes símios quando o Olympus Mons entrou em silêncio.
E alguns cientistas acreditam que ele ainda pode estar vivo.
Por que Marte tem um vulcão tão absurdamente grande?
A resposta está em algo que Marte não tem: placas tectônicas.
Na Terra, o manto quente do planeta se move lentamente, e as placas tectônicas deslizam sobre ele. Quando um ponto quente de magma no interior terrestre começa a alimentar um vulcão na superfície, a placa vai se movendo por cima dele ao longo de milhões de anos. O vulcão vai ficando para trás, extingue-se, e o magma começa a alimentar um novo vulcão um pouco mais adiante.
É assim que se formou a cadeia de ilhas do Havaí: cada ilha é um vulcão diferente, nascido acima do mesmo ponto quente em tempos diferentes, enquanto a placa do Pacífico deslizava por cima.
Em Marte, não existe essa deriva. A crosta marciana é estática — um único escudo rígido que não se move. Quando um ponto quente de magma começou a alimentar o Olympus Mons, a lava continuou chegando ao mesmo ponto, por bilhões de anos, empilhando camada sobre camada sobre camada, sem que o planeta se movesse para criar um vulcão novo ao lado.
Some a isso a gravidade de Marte, que é apenas um terço da terrestre: com menos gravidade puxando a estrutura para baixo, o vulcão consegue crescer muito mais alto antes de colapsar sob seu próprio peso.
O resultado é o monstro geológico que existe hoje.
Em 2024, pesquisadores detectaram na superfície do Olympus Mons algo inesperado: traços de gelo de água. Equivalente, segundo os cálculos, a 60 piscinas olímpicas de água congelada — depositadas durante o inverno marciano e evaporadas com o calor do dia. É pouca coisa, mas é água. E onde há água, a questão sobre vida começa a fazer sentido.
O Marte que existiu antes
Para entender por que o Olympus Mons importa para a questão da vida, precisamos voltar no tempo — uns 3 a 4 bilhões de anos.
O Marte jovem era um planeta completamente diferente. Tinha uma atmosfera mais densa, temperatura mais quente e, crucialmente, água líquida na superfície. Rios corriam por vales que hoje são desertos de rocha. Lagos se formavam em crateras de impacto. E na planície norte, evidências recentes sugerem que existia um oceano que cobria quase metade do planeta.
Essa não é mais uma hipótese especulativa. Em fevereiro de 2025, um estudo publicado nos Anais da Academia Nacional de Ciências dos EUA, baseado nos dados do rover chinês Zhurong, identificou depósitos sedimentares no subsolo de Utopia Planitia que são estruturalmente idênticos aos depósitos costeiros que se formam em praias na Terra. A conclusão dos pesquisadores da Universidade de Berkeley: Marte teve praias. Praias de areia batidas por ondas de um oceano sem gelo.
E onde havia água superficial em Marte, havia vulcões em atividade intensa. O Olympus Mons e os três vulcões de Tharsis Montes estavam todos crescendo durante esse período — despejando gases que ajudavam a criar um efeito estufa que mantinha o planeta quente o suficiente para a água líquida.
Em setembro de 2025, novas simulações publicadas revelaram algo perturbador: as erupções marcianas de 3 a 4 bilhões de anos atrás provavelmente liberavam grandes quantidades de sulfeto de hidrogênio, dióxido de enxofre e, possivelmente, hexafluoreto de enxofre — um dos gases estufa mais potentes conhecidos. Esses gases podem ter criado uma atmosfera suficientemente quente para sustentar água líquida por longos períodos.
E há mais. A mesma Curiosity da NASA, em 2024, rolou sobre uma rocha em Gale Crater e a esmagou acidentalmente — revelando em seu interior enxofre elementar puro, algo nunca visto antes em Marte. Enxofre não ligado ao oxigênio, exatamente o tipo que as pesquisas previam que as erupções antigas deveriam ter depositado.
O vulcanismo de Marte e a possibilidade de vida estão, ao que parece, profundamente conectados.
As descobertas de 2025 que mudaram o jogo
Em setembro de 2025, a NASA publicou os resultados mais perturbadores em décadas sobre a questão da vida em Marte.
O rover Perseverance, explorando a Cratera Jezero — um antigo lago que existiu há 3,5 bilhões de anos — encontrou em uma formação rochosa chamada Bright Angel algo que os cientistas descreveram como “o mais próximo que já chegamos de descobrir vida em Marte”.
Nas pedras de lama da região, o rover detectou: carbono orgânico (pela primeira vez em múltiplos pontos da mesma formação), e minerais como vivianita (um fosfato de ferro) e greigite (um sulfeto de ferro) em texturas muito específicas — pequenos nódulos chamados de “sementes de papoula” e manchas circulares chamadas de “manchas de leopardo”.
Essas texturas e minerais, na Terra, são quase exclusivamente produzidas por microrganismos. Bactérias que vivem em ambientes sem oxigênio frequentemente criam exatamente esse padrão como subproduto do seu metabolismo.
Nenhum cientista afirmou que encontrou vida. Todos disseram a mesma coisa: é a evidência mais compelling de que Marte pode ter tido vida, e precisamos das amostras físicas nas mãos de laboratórios na Terra para chegar a qualquer conclusão definitiva.
Um estudo separado, também de 2025, da Universidade de Nova York Abu Dhabi, analisou dunas de areia antigas no Gale Crater e encontrou evidências de que água subterrânea continuou fluindo sob a superfície de Marte por muito tempo depois que os rios e lagos da superfície secaram. Isso significa que Marte pode ter permanecido habitável por muito mais tempo do que se pensava — e que a janela para a vida microbiana no subsolo pode ter se estendido até um passado muito mais recente.
O problema: as amostras estão presas lá
Aqui está a parte frustrante da história.
O Perseverance coletou amostras do Jezero Crater e as selou em tubos metálicos. Esses tubos estão esperando em Marte, prontos para serem buscados. São 29 amostras — incluindo a do local chamado Sapphire Canyon, onde foram encontradas as evidências mais fortes de possíveis biosignaturas.
A missão Mars Sample Return, projetada para buscar essas amostras, foi cancelada ou indefinidamente suspensa em 2025, quando seu custo estimado subiu para entre 8 e 11 bilhões de dólares. Os dados do Perseverance permanecerão inconclusivos até que alguém traga o material para análise laboratorial na Terra.
É como encontrar um manuscrito antigo possivelmente revolucionário em uma caverna inacessível, saber exatamente onde ele está, e não ter ainda os meios para buscá-lo.
Voltando ao Olympus Mons
O que o maior vulcão do sistema solar tem a ver com tudo isso?
Tudo.
O Olympus Mons é a evidência mais visível de que Marte foi, durante bilhões de anos, um planeta geologicamente ativo, capaz de manter uma atmosfera, aquecer seus oceanos e criar os gradientes de energia química que, na Terra, alimentam os primeiros micróbios.
Sistemas hidrotermais — água quente aquecida por atividade vulcânica no subsolo — são hoje considerados o ambiente mais provável para o surgimento da vida na Terra primitiva. Marte teve atividade vulcânica intensa. Marte teve água. Marte teve os mesmos ingredientes.
A diferença é que Marte perdeu sua atmosfera ao longo de bilhões de anos — seu campo magnético enfraqueceu, o vento solar arrancou as moléculas do ar uma a uma, e o planeta foi esfriando e secando até chegar ao deserto de -63°C que vemos hoje.
O Olympus Mons é o monumento fóssil desse Marte que existiu — um planeta que poderia, com um pouco mais de massa e campo magnético, ter se tornado algo muito diferente. Talvez habitado.
Um detalhe que poucos sabem
Se você tentasse escalar o Olympus Mons, encontraria um problema peculiar no topo: a atmosfera marciana já é extremamente fina (menos de 1% da pressão atmosférica da Terra), e o pico do vulcão está tão alto que ultrapassa a maior parte da atmosfera do planeta.
Caminhar até o cume seria essencialmente caminhar para o espaço — sem nenhuma proteção contra a radiação cósmica, com pressão de ar próxima a zero e temperatura de até -130°C durante a noite marciana.
E ainda assim, o cume é tão gradualmente inclinado, e a base tão ampla, que alguém miraculosamente posicionado exatamente na caldera de topo poderia não perceber que estava no pico de nada. O horizonte se estenderia por 3 quilômetros em todas as direções — e além dele, as encostas desceriam suavemente, invisíveis, por centenas de quilômetros até o solo marciano.
O maior vulcão do sistema solar é grande demais para ser visto de perto.
No próximo artigo do Ciências em Fatos, a gente mergulha em algo assustador de um jeito diferente: a árvore que sobrevive a raios e ainda usa a eletricidade para matar os vizinhos. A biologia das plantas é muito mais violenta — e muito mais inteligente — do que parece.










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