A Estrela que Desapareceu 97% — Duas Vezes. E o Universo Ainda Guarda Segredos

estrela

Categoria: Astronomia | Tempo de leitura: 8 minutos | Nível: Para todos os públicos


Imagine olhar para o céu noturno e notar que uma estrela conhecida, catalogada, fotografada por anos — simplesmente sumiu.

Não apagou de vez. Não explodiu. Apenas ficou 97% mais fraca, durante meses, e depois voltou ao normal como se nada tivesse acontecido.

Isso aconteceu duas vezes. Com duas estrelas diferentes. Em anos diferentes. E as duas vezes, os astrônomos ficaram sem resposta imediata.

A primeira vez foi em 2012 — e a ciência levou anos tentando explicar. A segunda foi em 2024 — e a explicação chegou em agosto de 2025, trazendo uma resposta que levantou perguntas ainda maiores.

Juntas, as histórias dessas duas estrelas revelam algo sobre a astronomia moderna que raramente aparece nos noticiários: a ciência não é apenas descoberta. É investigação. É detetive. É o esforço coletivo de dezenas de equipes ao redor do mundo tentando explicar algo que o universo fez e que não pediu permissão para ser compreendido.


A primeira estrela: VVV-WIT-08

Durante o primeiro semestre de 2012, o telescópio VISTA, instalado no deserto do Atacama, no Chile, estava fotografando rotineiramente bilhões de estrelas próximas ao centro da Via Láctea como parte de um levantamento chamado VVV — VISTA Variables in the Via Lactea.

Nos dados, uma anomalia.

Uma estrela gigante — com cerca de 100 vezes o diâmetro do Sol, localizada a mais de 25.000 anos-luz da Terra, na direção do bojo galáctico — havia perdido 97% do seu brilho ao longo de cerca de 200 dias. A queda foi suave, simétrica, quase perfeita em sua forma. Em abril de 2012, ela estava no mínimo absoluto. Depois, lentamente, começou a voltar.

A equipe que processou os dados ficou perplexa. Publicaram o resultado em 2021, depois de anos de análise. E batizaram a estrela com um nome que diz tudo sobre o estado do conhecimento: VVV-WIT-08 — onde WIT significa, literalmente, “What Is This?” — “o que é isso?”.

A designação WIT é usada pelo projeto VVV para objetos que não se encaixam em nenhuma categoria conhecida de variabilidade estelar. É a confissão científica mais honesta possível: encontramos algo e não sabemos o que é.


Por que 97% é tão perturbador

Para ter dimensão do quão extraordinário foi o escurecimento, considere Tabby’s Star — outra estrela misteriosa que gerou manchetes mundiais em 2015 por causa de suas flutuações de brilho inexplicáveis, incluindo especulações sobre estruturas alienígenas. O maior escurecimento já registrado em Tabby’s Star foi de cerca de 22%.

VVV-WIT-08 escureceu 97%.

O que quer que tenha passado na frente dessa estrela para bloqueá-la quase completamente precisava ser imenso — e precisava ser completamente opaco. Os dados mostraram algo ainda mais perturbador: o escurecimento foi acromático — aconteceu igualmente em todos os comprimentos de onda de luz observados, do óptico ao infravermelho próximo.

Isso é crucial. Quando poeira comum bloqueia uma estrela, ela bloqueia comprimentos de onda diferentes em graus diferentes — a luz azul é mais bloqueada que a vermelha, o que faz a estrela parecer mais avermelhada durante o escurecimento. Se o escurecimento é igual em todos os comprimentos de onda, o objeto que bloqueou a luz não é poeira comum. É algo mais denso, mais uniforme, mais misterioso.

Seja lá o que causou a queda tão abrupta, era opaco, obstruindo uniformemente todos os comprimentos de onda visíveis e infravermelhos ao longo de todo o eclipse, escreveu a National Geographic.


As hipóteses — e o que nenhuma delas consegue explicar completamente

A equipe liderada por Leigh Smith, da Universidade de Cambridge, propôs em 2021 as hipóteses mais plausíveis até então:

Um disco de poeira gigante em órbita ao redor de um objeto ainda não detectado — uma estrela companheira, um buraco negro de massa estelar ou mesmo um planeta supermassivo — que por sua vez orbita VVV-WIT-08. O disco passaria na frente da estrela a cada algumas décadas, bloqueando sua luz por centenas de dias.

Um sistema binário de longa distância — onde a estrela gigante tem uma companheira oculta rodeada por um envoltório de material opaco tão espesso que bloqueia quase toda a luz da estrela primária quando passa entre ela e a Terra.

A equipe identificou dois outros objetos com comportamento similar durante a análise — sugerindo que VVV-WIT-08 pode não ser única, mas representante de uma nova classe de sistemas estelares ainda não catalogada.

Os pesquisadores acreditam que VVV-WIT-08 pode pertencer a uma nova classe de sistemas binários de “gigante piscante”, onde uma estrela gigante — 100 vezes maior que o Sol — é eclipsada a cada poucas décadas por uma companheira orbital ainda não vista.

O próximo eclipse de VVV-WIT-08? Os modelos sugerem que pode acontecer em algumas décadas — mas sem uma órbita confirmada, ninguém sabe exatamente quando. E a estrela está tão longe — 25.000 anos-luz — que mesmo os melhores telescópios atuais mal conseguem discernir os detalhes necessários para resolver o mistério completamente.

VVV-WIT-08 permanece, oficialmente, sem explicação definitiva.


A segunda estrela: ASASSN-24fw

Em setembro de 2024, o sistema ASAS-SN — All-Sky Automated Survey for Supernovae, uma rede de telescópios robóticos espalhados pelo globo que monitora o céu em busca de explosões estelares — detectou algo inesperado.

Uma estrela do tipo F a cerca de 3.000 anos-luz da Terra — muito mais próxima que VVV-WIT-08 — havia começado a escurecer. Em alguns meses, havia perdido 97% do seu brilho. Ficou nesse estado por oito meses. E em maio de 2025, voltou ao normal.

A semelhança com VVV-WIT-08 foi imediata e perturbadora. Dois eventos de escurecimento de 97%. Décadas diferentes. Estrelas diferentes, em locais diferentes da galáxia.

Desta vez, porém, havia uma diferença crucial: a estrela era próxima o suficiente, e os instrumentos modernos eram bons o suficiente, para que os astrônomos pudessem estudá-la em tempo real com uma variedade de telescópios e técnicas que não existiam em 2012.


A investigação em tempo real

Enquanto ASASSN-24fw estava no mínimo de brilho, equipes ao redor do mundo apontaram seus telescópios para ela — coletando espectros, medindo polarização da luz, comparando comprimentos de onda, tentando encontrar qualquer pista sobre o que estava bloqueando sua luz.

O dado mais importante foi o mesmo que havia intrigado os pesquisadores de VVV-WIT-08: o escurecimento era acromático. A cor da luz da estrela não mudou durante o eclipse. Vermelho, amarelo, azul — tudo escureceu igualmente.

Isso, segundo a equipe liderada por Raquel Forés-Toribio da Universidade Estadual de Ohio, eliminava imediatamente as causas mais óbvias.

Se a estrela tivesse esfriado — expandido e resfriado como fazem as gigantes vermelhas — sua cor teria mudado. Se poeira fina comum tivesse passado na frente, a luz azul teria sido bloqueada mais do que a vermelha.

Como a cor da luz da estrela permaneceu inalterada durante o escurecimento, o evento provavelmente não foi causado pela evolução da estrela, mas por uma grande nuvem de poeira e gás ao redor dela que bloqueou temporariamente a visão da Terra.

O estudo, publicado em agosto de 2025 no Open Journal of Astrophysics, propôs a explicação mais plausível até agora: um disco de poeira de 1,3 unidades astronômicas de diâmetro — maior do que a distância entre a Terra e o Sol — orbitando um objeto companheiro que está escondido na vizinhança da estrela principal.

O material desse disco, segundo os modelos, é composto de grãos grandes de carbono ou gelo de água, com cerca de 20 micrômetros de diâmetro — material semelhante ao encontrado em discos protoplanetários, os berçários onde planetas se formam.

Os pesquisadores estimam que o sistema ASASSN-24fw passa por um eclipse assim aproximadamente uma vez a cada 43,8 anos — e o próximo não deve ocorrer até por volta de 2068.


A resposta que abre mais perguntas

A explicação do disco de poeira é coerente e suportada pelos dados. Mas Forés-Toribio foi explícita: não explica tudo.

A análise espectral durante o escurecimento revelou sinais que sugerem a presença de uma estrela companheira menor e mais fria — provavelmente uma anã M com cerca de 25% da massa do Sol — orbitando ASASSN-24fw. Se essa companheira existe, o sistema teria dois corpos em órbita um ao redor do outro, com o disco de poeira girando ao redor dos dois.

Essa configuração — chamada disco circumbinário — é exatamente o tipo de sistema onde planetas podem se formar em geometrias incomuns. Saturno tem anéis. Planetas em sistemas binários podem ter discos de material à sua volta. ASASSN-24fw pode estar nos mostrando, em escala estelar, algo análogo a um sistema de anéis planetários — mas enorme o suficiente para bloquear a luz de uma estrela inteira durante oito meses.

“No momento, com os dados que temos, o que propomos é que deve haver duas estrelas juntas num sistema binário”, disse Forés-Toribio.

E há um detalhe que os próprios pesquisadores acharam perturbador: ao procurar por outros sistemas com comportamento similar em grandes surveys de céu, encontraram muito poucos casos comparáveis. ASASSN-24fw parece ser uma ocorrência genuinamente rara.


O que VVV-WIT-08 e ASASSN-24fw têm em comum — e o que isso revela

Dois eventos. Dois 97%. Dois mistérios.

Um ainda sem resolução definitiva. O outro com uma explicação parcial que levanta novas perguntas.

Mas ambos revelam algo fundamental sobre a astronomia moderna: o universo está constantemente produzindo fenômenos que os catálogos e as teorias existentes não anteciparam. E os sistemas de monitoramento automático do céu — VISTA, ASAS-SN, ATLAS, TESS — estão encontrando esses fenômenos em ritmo crescente.

Há algumas décadas, uma estrela que sumisse 97% poderia passar completamente despercebida. Os telescópios não cobriam céu suficiente com frequência suficiente para capturar um evento que dura 200 dias numa estrela de 25.000 anos-luz. Hoje, redes automatizadas de telescópios fotografam o céu inteiro a cada poucas noites, criando filmes do cosmos em câmera lenta que revelam variações que seriam invisíveis para qualquer observador humano monitorando manualmente.

O resultado é um fluxo crescente de objetos que não se encaixam em nenhuma categoria conhecida — objetos WIT, objetos WEIRD, eventos de dimming sem precedente. A ciência está encontrando perguntas mais rápido do que está conseguindo respondê-las.

E isso, longe de ser uma fraqueza, é exatamente como o conhecimento científico avança.


O que a estrela que desapareceu ensina

“Queremos que nossos dados sejam acessíveis daqui a cem anos, mesmo que não estejamos mais por aqui”, disse Stanek, coautor do estudo.

Essa frase, dita a propósito de ASASSN-24fw, captura algo essencial sobre a ciência das estrelas misteriosas.

O próximo eclipse de ASASSN-24fw acontecerá por volta de 2068. Os pesquisadores que estudaram o evento atual provavelmente não estarão mais em atividade para observá-lo. Mas os dados que coletaram — os espectros, as medições de polarização, os modelos do disco — estarão lá. E a geração de astrônomos de 2068, com instrumentos ainda mais poderosos, poderá comparar o próximo eclipse com o de 2024, refinar os modelos e talvez finalmente resolver completamente o mistério.

É uma ciência que opera em escalas de tempo humanas e astronômicas ao mesmo tempo — onde um paper publicado hoje pode ser decisivo para uma observação que acontecerá décadas depois de seus autores terem se aposentado.

VVV-WIT-08 terá seu próximo eclipse em algum momento das próximas décadas — ninguém sabe exatamente quando. Quando acontecer, os telescópios de nova geração, talvez o Extremely Large Telescope em construção no Chile, estarão prontos.

As estrelas que desapareceram 97% estão, na verdade, nos dando algo raro: tempo para nos preparar para a próxima pergunta.

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