O Ponto Nemo — O Lugar Mais Remoto da Terra e o Cemitério Oficial das Espaçonaves

ponto-nemo

Tempo de leitura: 7 minutos | Nível: Para todos os públicos


Existe um ponto no oceano Pacífico Sul onde, se você caísse overboard de um navio, teria que nadar pelo menos 2.688 quilômetros em qualquer direção para alcançar terra firme.

Para ter noção dessa distância: é aproximadamente a distância entre São Paulo e Belém. Em linha reta. Sobre o oceano aberto. Sem nada no meio.

E as três “terras mais próximas” desse ponto? Todas desertas. Ilhas minúsculas e remotas que nem sequer têm população permanente. A mais próxima ao norte é o Atol Ducie, nas Ilhas Pitcairn. A nordeste, Motu Nui, um ilhote ao lado da Ilha de Páscoa. Ao sul, a Ilha Maher, na Antártida.

Esse ponto tem coordenadas precisas — 48°52.6’S 123°23.6’W — e um nome que só poderia ter vindo de Jules Verne.

Chama-se Ponto Nemo.

E no fundo do oceano 4.000 metros abaixo dele, descansam os restos de quase 300 espaçonaves.


O nome que veio de um romance — e do engenheiro que o calculou

Em 1992, o engenheiro geodesista croata-canadense Hrvoje Lukatela estava resolvendo o que os matemáticos chamam de “problema da natação mais longa” — encontrar o ponto nos oceanos do mundo que estaria igualmente mais distante de qualquer pedaço de terra.

O problema parece simples mas é geometricamente complexo. A Terra não é uma esfera perfeita — é um elipsoide levemente achatado nos polos. As costas dos continentes têm formas irregulares e fractais. E o ponto mais distante de qualquer terra precisa ser equidistante de pelo menos três costas simultaneamente — se fosse mais próximo de qualquer uma delas, você simplesmente nadaria para aquela direção.

Lukatela desenvolveu seu próprio software geodésico e rodou os cálculos. O resultado foi um ponto no meio absoluto do Pacífico Sul — equidistante de três ilhas remotas, nenhuma delas habitada, cada uma a exatamente 2.688 quilômetros.

Para batizar sua descoberta, Lukatela recorreu ao personagem favorito de Jules Verne: o Capitão Nemo de Vinte Mil Léguas Submarinas — o marinheiro que jurou nunca mais pisar em terra firme. Nemo, em latim, significa “ninguém”.

O ponto mais distante de qualquer terra no planeta se chama, portanto, o ponto de “ninguém”. E de fato: ninguém vive a menos de 2.688 quilômetros dali.

Exceto, às vezes, os astronautas.


Os vizinhos mais próximos vivem no espaço

A área é tão remota que, como não há rotas regulares de navegação ou de aviação num raio de 400 quilômetros, às vezes as pessoas mais próximas ao Ponto Nemo são os astronautas a bordo da Estação Espacial Internacional quando ela passa sobre ele.

A ISS orbita a Terra a uma altitude de 415 quilômetros. O Ponto Nemo está a 2.688 quilômetros da terra mais próxima — medida horizontal na superfície.

Em outras palavras: quando a ISS passa sobre o Ponto Nemo, os astronautas a bordo estão mais perto daquele ponto do que qualquer ser humano na superfície terrestre.

O oceano mais vazio da Terra é vizinho do espaço.


Por que 300 espaçonaves estão no fundo do oceano ali

Desde 1971, os Estados Unidos, a Rússia, o Japão e vários países europeus desorbinaram quase 300 espaçonaves — incluindo a estação espacial soviética Mir — e as programaram para cair no oceano nessa região remota.

A lógica é engenhosamente simples.

Espaçonaves não podem ficar em órbita para sempre. Com o tempo, a resistência atmosférica mínima das camadas superiores da atmosfera vai vagarosamente diminuindo a altitude de qualquer objeto em órbita baixa. Se não for reorbitado ativamente, o objeto inevitavelmente reentrará na atmosfera de forma descontrolada — e os fragmentos que sobreviverem ao calor da reentrada cairão em algum lugar da Terra.

Há pelo menos 26.000 pedaços de lixo espacial orbitando a Terra com tamanho de bola de softball ou maior — cada um capaz de destruir um satélite em colisão. Mais de 500.000 têm o tamanho de uma bola de gude. E mais de 100 milhões têm o tamanho de um grão de sal, grandes o suficiente para perfurar um traje espacial.

Para objetos grandes demais para se desintegrar completamente na reentrada — como estações espaciais inteiras — a única solução é a reentrada controlada: usar os propulsores restantes para diminuir a velocidade orbital de forma precisa, calcular a trajetória de queda e apontar para um alvo específico no oceano.

“Olhamos ao redor do mundo para onde ninguém está vivendo, onde ninguém está voando e onde não há barcos”, disse Stijn Lemmens, analista de detritos espaciais da Agência Espacial Europeia. “O Ponto Nemo é um deles.”


Os inquilinos do fundo do mar

O cemitério de espaçonaves no Ponto Nemo acumula uma coleção extraordinária de hardware espacial.

A Estação Espacial Mir — a mais famosa das residentes — foi desintegrada controladamente em março de 2001 depois de 15 anos em órbita. Com 120 toneladas, era o maior objeto já enviado propositalmente ao fundo do Pacífico. A reentrada criou uma chuva de fragmentos incandescentes visível da Nova Zelândia. A Mir foi de longe o maior objeto a mergulhar no Ponto Nemo.

Seis estações Salyut soviéticas também repousam ali, juntamente com dezenas de naves de carga Progress que abasteciam a ISS ao longo dos anos.

O H-II Transfer Vehicle japonês — as naves de carga não tripuladas do Japão, chamadas de Kounotori — fizeram múltiplas viagens à ISS e todas terminaram no mesmo endereço no Pacífico Sul.

Os veículos ATV europeus — as naves de carga da ESA — seguiram o mesmo destino após cada missão.

A Tiangong-1 chinesa foi o único caso mal-sucedido. Quando a primeira estação espacial chinesa foi descomissionada, houve uma falha de energia que causou perda de controle, resultando numa reentrada não controlada fora do cemitério de espaçonaves. Os fragmentos caíram no Oceano Pacífico central em abril de 2018 — longe do Ponto Nemo, mas ainda sobre o oceano.


A ISS vai para lá em 2031

O próximo e maior inquilino do cemitério do Ponto Nemo já tem data marcada.

A NASA planeja aposentar a ISS até 2030 e iniciará manobras de deórbita já em 2026, reduzindo gradualmente a altitude da estação até que ela reentry na atmosfera e caia no Pacífico Sul em 2031.

A ISS tem 109 metros de envergadura — maior que um campo de futebol. Pesa aproximadamente 450 toneladas. É de longe o objeto mais massivo que já será desorbitado de forma controlada.

A maior parte se desintegrará na reentrada — o atrito com a atmosfera, a temperaturas de até 1.600°C, converterá estrutura em plasma. Mas fragmentos de aço inoxidável, titânio e alumínio — materiais com ponto de fusão muito alto — sobreviverão e afundarão a 4.000 metros de profundidade no Pacífico.

Os engenheiros calculam que a área de dispersão dos fragmentos se estenderá por centenas de quilômetros ao longo da trajetória de reentrada — mas toda dentro da vasta extensão do oceano ao redor do Ponto Nemo, longe de qualquer rota de navegação ou aviação.


Um deserto biológico com microplásticos

Há uma ironia perturbadora no Ponto Nemo.

Apesar de sua remotidão, o Ponto Nemo é afetado pela poluição por plástico, com amostras de água mostrando até 26 partículas de microplástico por metro cúbico.

Isso é menos do que muitas áreas costeiras populosas — mas ainda é plástico no lugar mais remoto da Terra. Polímeros produzidos em fábricas, usados em produtos descartáveis, jogados em oceanos e rios, transportados por correntes oceânicas por anos até chegarem a um ponto que fica a 2.688 quilômetros de qualquer costa.

O Ponto Nemo fica dentro do Giro do Pacífico Sul — um sistema de correntes oceânicas rotativas que abrange grande parte do Pacífico meridional. Essa dinâmica bloqueia a chegada de nutrientes à região, criando o que os cientistas chamam de um deserto oceânico.

Sem nutrientes, sem fitoplâncton. Sem fitoplâncton, sem zooplâncton. Sem zooplâncton, sem peixes. Acredita-se que não há peixes ou outra vida marinha significativa na área, com a falta de nutrientes tornando difícil até para as espécies mais resistentes sobreviver.

É o lugar mais vazio do oceano — biologicamente, geograficamente e humanamente.


O som misterioso que veio de lá

Em 1997, hidrofones do sistema de monitoramento sísmico dos EUA — instalados para detectar explosões nucleares subaquáticas durante a Guerra Fria — captaram algo no Pacífico Sul.

Era um som de baixa frequência, extraordinariamente intenso, com características que não correspondiam a nenhuma fonte conhecida — nem submarinos, nem terremotos, nem vulcões subaquáticos. Pesquisadores da NOAA batizaram o som de “The Bloop” — e por anos ele permaneceu inexplicado, alimentando especulações sobre criaturas gigantes desconhecidas nas profundezas.

Em 2005, “The Bloop” foi finalmente identificado como o som de um terremoto de gelo — causado pelo movimento e fraturamento de geleiras e icebergs na Antártida.

O lugar mais remoto da Terra também produziu o som mais misterioso do oceano. E a explicação foi, ao final, geologia glacial — não monstros marinhos.

Embora, honestamente, a explicação verdadeira seja quase tão impressionante.


O paradoxo do lugar mais vazio

O Ponto Nemo é um paradoxo perfeito.

É o lugar mais remoto e vazio da Terra — sem gente, sem barcos, sem aviões, sem vida marinha significativa. E ainda assim é um dos lugares mais movimentados do sistema solar interior: centenas de toneladas de espaçonaves foram direcionadas precisamente para ali, a ISS passa sobre ele regularmente, e hidrofonés militares ao redor do mundo registram cada terremoto sísmico nas suas profundezas.

É o deserto do planeta — e o cemitério escolhido da exploração espacial humana.

Quando a ISS cair ali em 2031, será o fim de 30 anos de presença humana contínua no espaço — a estação foi ocupada ininterruptamente desde novembro de 2000. Fragmentos de 109 metros de estrutura onde humanos viveram, trabalharam, fizeram ciência e contemplaram a Terra afundarão 4.000 metros no oceano mais biologicamente vazio do planeta.

E lá ficarão. Os componentes que sobrevivem à reentrada devem se desintegrar muito lentamente nas águas pobres em nutrientes da região, tornando o Ponto Nemo uma potencial mina de ouro para arqueólogos de gerações futuras.

Arqueólogos do futuro. Estudando espaçonaves. No fundo do oceano mais remoto da Terra.

O universo tem um senso de humor muito peculiar.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *