Tempo de leitura: 8 minutos | Nível: Para todos os públicos
Em fevereiro de 2025, pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia publicaram na revista Science um experimento que ninguém havia documentado antes.
Eles colocaram um rato consciente na mesma gaiola que um companheiro de jaula que havia sido anestesiado e estava completamente imóvel. Sem treinamento. Sem recompensa. Sem instrução.
O rato consciente se aproximou, farejou o companheiro imóvel e começou a agir.
Primeiro veio o farejo intenso — tentando avaliar o que havia de errado. Depois, o grooming — lambidas e cuidados na face e pescoço do animal inconsciente. Depois, algo que os pesquisadores não esperavam: o rato começou a puxar a língua do companheiro com a boca, mordiscar ao redor das narinas e empurrar o focinho com as patas — ações que, em humanos, equivaleriam exatamente ao primeiro passo de um protocolo de ressuscitação cardiopulmonar: desobstruir as vias aéreas.
E funcionou. Os ratos que receberam esses cuidados acordaram mais rápido da anestesia do que aqueles que ficaram sozinhos.
Não estamos falando de reflexo ou instinto simples de higiene. Estamos falando de um comportamento sequencial, direcionado a um objetivo específico, que muda de intensidade conforme o estado do companheiro, que cessa quando o companheiro acorda — e que só aparece com companheiros conhecidos, não com estranhos.
O que isso é, se não empatia?
O experimento que mudou a questão
O estudo, liderado pelo professor Li Zhang da Keck School of Medicine da USC, documentou com precisão a escalada do comportamento.
Quando o rato anestesiado começava a ficar imóvel, o rato consciente aumentava progressivamente a intensidade das suas ações. O padrão seguia uma sequência consistente em todos os animais testados: farejo → grooming → mordidas suaves no focinho → puxão de língua.
As últimas duas ações — especialmente o puxão de língua — foram as mais perturbadoras para os pesquisadores. Em humanos, “abrir as vias aéreas” é literalmente o Passo 1 do protocolo de RCP. O fato de que um rato faz algo funcionalmente equivalente, sem nenhum aprendizado, foi o que chamou a atenção do mundo científico.
“A urgência com que os ratos-ajudantes direcionam suas ações para a boca e a língua do companheiro inconsciente parece melhorar as vias aéreas e levar a uma recuperação mais rápida”, descreveu Huizhong Tao, coautor do estudo.
Mas o dado mais revelador do experimento foi outro.
Os ratos eram significativamente mais propensos a fazer isso com companheiros de gaiola conhecidos do que com estranhos. Quando colocados com um rato que não conheciam, o comportamento de resgate era muito menos intenso — às vezes ausente.
Isso descarta a hipótese de que o comportamento é apenas um reflexo automático de “limpar algo próximo”. O rato está, de alguma forma, reconhecendo quem está inconsciente e calibrando sua resposta de acordo com o relacionamento que tem com aquele indivíduo.
Há reconhecimento individual. Há gradação de resposta baseada em vínculo. Há ação direcionada à recuperação do companheiro.
Se você descrevesse esse comportamento em um humano, chamaria de altruísmo. Talvez até de amizade.
O que está acontecendo no cérebro do rato
Para entender o mecanismo, a equipe usou imageamento neural e técnicas de optogenética — um método que permite controlar neurônios com pulsos de luz — para observar o que acontecia no cérebro dos ratos enquanto eles realizavam o comportamento de resgate.
O resultado apontou diretamente para a oxitocina.
A oxitocina é um neuropeptídeo produzido no hipotálamo e amplamente conhecido como o “hormônio do apego”. Está associada ao vínculo entre mãe e filho, à confiança social, ao amor romântico, à cooperação entre indivíduos. Em humanos, a oxitocina é liberada durante abraços, amamentação e até durante conversas positivas com pessoas próximas.
Nos ratos-ajudantes, a oxitocina disparou durante o comportamento de resgate. Quando os pesquisadores bloquearam a sinalização de oxitocina, o comportamento de resgate diminuiu significativamente. Quando a oxitocina foi estimulada, o comportamento aumentou.
O estudo foi o primeiro a demonstrar que a oxitocina pode ser um fator primário no comportamento de vinculação social em ratos — e sugere que o mesmo sistema neurobiológico que produz o apego e a empatia em humanos existe, funcionando de forma análoga, em roedores.
Além da oxitocina, a atividade aumentou nas regiões do cérebro associadas à empatia e ao comportamento social: a amígdala e o hipotálamo — as mesmas regiões que se ativam em humanos quando observamos alguém sofrendo.
Ratos não são os únicos
O comportamento dos ratos não é um caso isolado. A descoberta de 2025 se encaixa numa série crescente de evidências de que a empatia — ou algo funcionalmente muito próximo a ela — está distribuída pelo reino animal de formas que a ciência só recentemente começou a documentar com rigor.
Ratos que liberam companheiros presos
Em 2011, pesquisadores da Universidade de Chicago publicaram um experimento hoje clássico: um rato era colocado numa gaiola com um companheiro preso em um tubo fechado. O rato livre podia abrir o tubo — mas não havia recompensa para fazê-lo. E ainda assim, o fazia repetidamente, mesmo quando a abertura do tubo não resultava em nenhum benefício direto.
Mais perturbador ainda: quando colocados diante da escolha entre abrir o tubo do companheiro preso OU acessar uma caixinha de chocolate (a comida favorita de ratos), a maioria escolhia primeiro libertar o companheiro — e então dividir o chocolate com ele.
Elefantes que voltam aos ossos dos mortos
Elefantes africanos exibem o que os pesquisadores chamam de comportamento de luto: voltam repetidamente ao local onde um membro do grupo morreu, tocam os ossos com a tromba, ficam em silêncio por períodos prolongados. Inclusive com ossos de elefantes que não pertencem ao seu próprio grupo — como se reconhecessem que aqueles restos pertenceram a um ser como eles.
Joyce Poole, que estudou elefantes africanos por mais de 40 anos, documentou casos em que famílias inteiras passavam dias junto ao corpo de uma matriarca morta, chafurdando o cadáver com as trombas e afugentando predadores.
Golfinhos que sustentam os que não conseguem respirar
Golfinhos foram documentados sustentando companheiros feridos ou doentes à superfície da água — impedindo que se afogassem — por horas ou até dias, revezando entre si para que o animal incapacitado conseguisse respirar.
Em um caso documentado ao largo da Coreia, pesquisadores observaram um grupo de golfinhos-nariz-de-garrafa sustentando uma fêmea com deformidade na coluna por mais de uma semana. A fêmea não conseguia nadar por conta própria, mas sobreviveu graças à assistência contínua do grupo.
Chimpanzés que consolam os perdedores
Após uma briga entre chimpanzés, um terceiro animal frequentemente se aproxima do chimpanzé que perdeu o conflito e o abraça ou faz grooming até que ele pare de vociferar. Esse comportamento de consolação, documentado por Frans de Waal, é espontâneo e não traz nenhum benefício aparente ao consolador — que às vezes se coloca até em risco de ser atacado ao fazê-lo.
O problema de chamar isso de empatia
Há uma ressalva importante que qualquer cientista honesto faz ao falar sobre empatia em animais: o perigo do antropomorfismo — a projeção de estados mentais humanos em seres com sistemas cognitivos radicalmente diferentes.
Quando dizemos que um rato “sente empatia”, estamos usando uma palavra que em humanos implica consciência subjetiva, teoria da mente, compreensão do estado interno do outro. Nada disso pode ser aferido em animais com os instrumentos disponíveis hoje.
O que pode ser afirmado com rigor científico é que:
Ratos detectam o estado de incapacidade de um companheiro e respondem com ações que funcionalmente melhoram a condição daquele companheiro. Esse comportamento é modulado pela familiaridade, mediado por oxitocina e ativado em regiões cerebrais associadas à empatia em humanos.
O comportamento dos ratos não é idêntico à empatia humana. Mas compartilha os mesmos substratos neurobiológicos, os mesmos padrões de seletividade social e os mesmos efeitos funcionais.
A distinção entre “empatia” e “algo que funciona como empatia” pode ser semanticamente importante — mas biologicamente, parece cada vez menos significativa.
Por que isso importa para a medicina humana
A razão pela qual a USC e outros laboratórios investem nesse tipo de pesquisa vai além da curiosidade sobre o comportamento animal.
Quando os circuitos neurais que controlam o comportamento de resgate se tornarem mais claros, os pesquisadores terão um modelo animal para estudar condições em que esses circuitos falham.
O Alzheimer, por exemplo, frequentemente compromete a capacidade de reconhecimento social e a responsividade emocional às necessidades dos outros. O autismo, em muitas de suas manifestações, envolve dificuldades na leitura de estados emocionais alheios. A psicopatia caracteriza-se justamente pela ausência de resposta empática a sinais de sofrimento.
Se os ratos têm um circuito de oxitocina que aciona comportamento de resgate quando um companheiro familiar está em perigo — e se esse circuito tem equivalentes em humanos — então entender como ele falha pode revelar alvos terapêuticos novos para condições que hoje têm tratamentos muito limitados.
O estudo de 2025 foi explícito sobre essa ambição: compreender os caminhos neurais desses comportamentos “poderia revelar as causas subjacentes de déficits em certos distúrbios neurológicos, do Alzheimer ao autismo”.
A pergunta que persiste
Havia algo antes da empatia humana.
Quando os primeiros hominídeos desenvolveram a capacidade de se colocar no lugar do outro — de sentir o que outro sente, de ser movido pela dor alheia — eles não criaram algo do nada. Eles herdaram e ampliaram algo que já existia: circuitos neurobiológicos de reconhecimento social, de vínculo, de responsividade ao sofrimento do próximo.
Esses circuitos estavam lá antes de nós. Em ratos que puxam a língua de companheiros inconscientes. Em golfinhos que sustentam os que não conseguem respirar. Em elefantes que ficam em silêncio perto dos ossos dos mortos.
A empatia humana não é uma invenção. É a versão mais elaborada de algo muito antigo, muito disseminado e muito fundamental para a sobrevivência de animais sociais.
Um rato não sabe o que é CPR.
Mas sabe — de alguma forma inscrita nos seus neurônios de oxitocina — que quando alguém familiar está imóvel e sem responder, a coisa certa a fazer é tentar ajudar.















Leave a Reply